quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

(José Ames)

O ESPÍRITO SANTO


Gilgamesh Project /Neil Dalrymple

"(...) o  Espírito Santo  não  é  um  mandamento  arbitrário  e  absurdo,  é  um discernimento;  uma  vez  que  se  dirige  à  minha  inteligência,  convida-me  a  praticar, por  mim  próprio,  a  'crisis'  [crise],  o  discernimento  dos  mitos;  é  já  uma  forma  de praticar  o  'crede  ut  intelligas'  [compreender  para  crer]"
(Paul Ricoeur)

Pertence à modernidade, contrapor este 'discernimento' aplicado aos mitos, ao discernimento científico que não reconhece a verdade não-objectiva da mitologia. Aliás, por definição, a palavra mito é hoje conotada com a mentira, ou com uma narrativa em que se faz fé. Veja-se a definição do CNRTL*: "história relatando factos imaginários não consignados pela história, transmitidos pela tradição e pondo em cena seres que representam simbolicamente forças físicas, generalidades de ordem filosófica, metafísica ou social." A antiga ciência - é bom lembrar - nasceu sob os auspícios da religião, mas pensa-se que separou definitivamente dela, no tempo de Galileu. O problema das suas origens é, por isso, uma espécie de 'buraco negro'. E, na verdade, o que distingue a teoria dos 'buracos negros' dum mito moderno é a falta de uma prova que poria a construção de Einstein ao nível da saga de Gilgamesh.

O tempo do que agora se chama de pós-verdade começou muito antes, no momento em que nos contentámos com o facto das ideias científicas funcionarem.

Ora, nesse aspecto, não podemos deixar de reconhecer que a mitologia funcionou, enquanto não foi substituída. Ela 'produziu' a espécie de 'verdade prática' a que depois nos habituámos, através do desenvolvimento científico.

E esta conclusão esclarece a questão do discernimento, do mito dirigido à nossa inteligência, levantada por Ricoeur. Na verdade, o mito é uma chave para compreender uma situação humana que, necessariamente, não é do domínio da física.

E acrescento que, no seu próprio domínio, chega onde a ciência não pode chegar, a não ser que voltasse às suas origens...

* Centre national de ressources textuelles et lexicales

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

(Alcobaça)

A SELA DO COWBOY



"Alain denuncia a fórmula 'A paz pelo direito' como um grito de guerra, porque o direito é o que se quer. A verdadeira paz é pela arbitragem (...). O homem perigoso é aquele que quer a paz pelo direito, dizendo que não recorrerá à força, desde que o seu direito seja reconhecido. Isso promete-nos um futuro radioso (...). O acto jurídico essencial consiste nisto: que solenemente se renuncia a sustentar o seu direito  pela força."

"Alain, un sage dans la cité" (André Sernin)

Com a bagagem da 1a. Grande Guerra, que viveu nas trincheiras, o filósofo Alain (Émile Chartier) escreveu dois livros tendo por título Marte, o deus da guerra romano. Não foi por acaso que escolheu um deus. Nem foi por acaso que, como sub-título daquele díptico, tivesse escrito: a 'Guerra Julgada'. Porque o paganismo nos passou a imagem da assembleia dos deuses manobrando das nuvens os títeres que nós somos. Julgar o seu 'desígnio' é, pois, uma fanfarronada, ou um acto de fé na razão (que correspondia, também entre os Gregos, a uma figura divina). A conclusão óbvia deste dilema, se pensássemos como esses brilhantes atenienses, seria a de que, de uma maneira ou de outra, quer puxados por Neptuno, quer por Atena, no fundo, a nossa pobre raça não sabe 'a quantos anda'. Isto parece-me muito apropriado no caso dos últimos sucessos dentro da União Europeia e no outro lado do Atlântico.

A posição racional e pacifista a todo o custo do grande mestre de toda uma geração, esbarrou contra o muro dos bárbaros que escolheram um louco para seu chefe. E verificou-se o que todos temiam: o pacifismo foi posto de lado como uma relíquia para melhores dias.

Claro que a fórmula de que não haverá paz se quisermos guiarmo-nos pelo nosso direito, pela retórica das 'conquistas alcançadas', cheiraremos o 'perfume de vitória' da derrota final de todos. Por isso, a China faz bem em 'medir as suas palavras'. Estamos, de novo, com um louco à frente do maior poder na terra.

A nossa grande esperança é que, sendo também militar, é muito mais do que isso. Talvez não cheguemos a ver o cowboy, do 'Dr. Strangelove' de Kubrick, a cavalgar a bomba como se estivesse no seu rancho.



terça-feira, 6 de dezembro de 2016

(José Ames)

INCOMPREENSÃO

(Isaac Newton)


"A oposição ao newtonianismo — entendido como física — foi profunda e vigorosa, a princípio. Aos poucos, entretanto, foi-se desmoronando. O sistema funcionava e provou o seu valor. Quanto à atracção, ela foi progressivamente perdendo sua estranheza. Como o expressou Mach com muita propriedade, a incompreensibilidade incomum transformou-se numa in-compreensibilidade comum". Uma vez acostumadas a ela, as pessoas, com pouquíssimas excepções, deixaram de especular a seu respeito. Assim, cinquenta anos depois da publicação, em 1687, dos 'Philosophiae Naturalis Principia Mathematica' — título tão ousado e conscientemente desafiador quanto a 'Physica Coelestis' de Kepler, oitenta anos antes, ou a 'Évolution Créatrice' de Bergson, duzentos anos depois —, os grandes físicos e matemáticos da Europa — Maupertuis, Clairaut, d'Alembert, Euler, Lagrange e Laplace — iniciaram, diligentemente, o trabalho de aperfeiçoar a estrutura do mundo newtoniano, de desenvolver os instrumentos e métodos da investigação matemática e experimental (Desaguliers, Gravesande e Musschenbroek) e de conduzí-la de sucesso em sucesso, até que, no fim do século XVIII, na 'Mécanique Analytique' de Lagrange e na 'Mécanique Céleste' de Laplace, a ciência newtoniana pareceu atingir sua perfeição final e definitiva. Uma perfeição tal que Laplace pôde afirmar, orgulhosamente, que  o seu Sistema do Mundo não deixava nenhum problema de astronomia sem solução."

"Significado da Síntese Newtoniana" (Alexandre Koyré)

O fenómeno da normalização do incompreensível repete-se ao longo da história. Não é só a mentira que se torna facto com a repetição sistemática. Na investigação jurídica ou científica também decidimos (liminarmente) partir de um ponto para além do qual abdicamos de compreender. Os números irracionais são um paradoxo da matemática? Não podemos provar as premissas das nossas suposições científicas? O que importa é que as explicações convençam a nossa razão. Desde Kant que sabemos que nunca chegamos ao fundo das questões. Há um limite para lá do qual não sabemos, nem podemos saber. Como agora se diz, não é possível pensarmos 'fora de uma caixa qualquer'.

Por isso, Mach (o pensador sobre que Lenine assestou a sua bateria teórica) tem razão em assinalar o 'progresso' da incompreensão generalizada. Com a ressalva que as pessoas não pensam assim. Chamam outra coisa a uma compreensão que parece não lhes fazer falta para viver. Pretensão sacerdotal?

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

(Porto - Clérigos)

O CALDEIRÃO DAS CULPAS


(Obra de Mattia Preti, Orpheus no Hades, 1640-1645)

"No Hades, os mortos vinham à presença de um juiz que examinava o seu passado e atribuía a punição apropriada. O juiz podia sentenciar aqueles que tivessem cometido malfeitorias menores a uma divagação perpétua no mundo subterrâneo, num estado de alienação, não conhecendo grande sofrimento, nem grande alegria. A maldade séria, por outro lado, era punida com pesada flagelação, trabalho duro, fome e tortura. Os primeiros Gregos pensavam que todas as almas - tanto as boas como as más - viviam no Hades. Uma descrição de como os primeiros Gregos imaginavam o mundo subterrâneo é-nos dada no Livro 11 da 'Odisseia', o poema épico de Homero."

("Ancient Greece and Rome", Carrol Mouton)

Foi aí que voltámos, nós 'ocidentais', depois de mais de 2000 anos de Cristianismo, da Reforma e do Grande Cisma, em plena Era da Técnica?

A ideia do Inferno, a imagem que o descrevia ainda em meados do século passado, para impressionar os alunos da escola primária e da catequese é uma alegoria apenas com valor estético.

A maioria dos Americanos usa a palavra nas suas imprecações, e é ainda a palavra mais adequada para significar o maior dos horrores, vivido por tantos, sobre a terra, e não debaixo dela (se excluirmos os soterrados, os mineiros, o metropolitano, os esgotos e...a Atlântida, esse mito talvez indispensável à visão platónica).

Com o inferno (mas qual é a ligação?), a própria Morte foi 'varrida para debaixo do tapete'. Já se antevê a possibilidade de, num futuro não muito longínquo, podermos escolher os que têm de morrer.

A comparação só funciona, porém, se aceitarmos que o novo Hades não é um lugar. Não está por debaixo dos nossos pés nem por cima de nós. É uma privação, talvez. Como (não sei se já chegámos aí) a do telemóvel, a da 'rede', de não estarmos conectados.

Com a vida reduzida ao tempo do 'corpo' (mas também ao do nome, ao tempo dos heróis e da 'alma', na sua versão pré-cristã, que transcende o 'cadáver adiado que apodrece'), parece não haver solução de continuidade entre o 'antes' e o 'depois'.

Não, não voltámos a esse paganismo feliz. Feliz, porque inocente. Mas não sabemos o que vai sair do 'caos' e do caldeirão das culpas.


domingo, 4 de dezembro de 2016

(José Ames)

A DEMOCRACIA INTOCÁVEL

A fan offers a bit of relief to a sleeping Untouchable child



Uma democracia que tem de conviver com uma religião em que os homens não podem ser considerados iguais é uma contradição nos termos.

Na Índia, há cerca de 200 milhões de "intocáveis" que, aos olhos dos seus compatriotas só são bons para limpar as suas latrinas.

Para poderem exercer os seus direitos cívicos, a esses párias é necessário que reneguem o hinduísmo.

O sistema de castas tem um papel semelhante àquele que as ditaduras do médio oriente desempenham no controle e na consensualização das desigualdades sociais.

A democracia que os Ingleses implantaram no antigo "Raj" existe numa forma diminuída porque está assente numa religião anti-democrática.

Mas esse enxerto ocidental tem permitido, apesar de tudo, uma lenta evolução, como o demonstra a política de discriminação positiva.

E claro que só poderemos falar em evolução se acreditarmos nalguns valores universais e não nos deixarmos tolher por uma má consciência revisionista.

sábado, 3 de dezembro de 2016

(José Ames)

OS VELHOS MITOS

"Oedipus Explains the Riddle of the Sphinx"

(Jean August Dominique Ingres)

"Um velho mito de novo nos incita a interrogarmo-nos. Há tantos! Para tudo!
Será por essa razão que nada de realmente criador, desde há muito tempo, se produziu no mundo? Teríamos nós sido esgotados pelos velhos mitos?"

Elias Canetti ("Le Territoire de l'homme")


É como a infância que também é inesgotável, imperscrutável e fonte de toda a poesia.

Sendo um verdadeiro começo, é aí que se formam as imagens essenciais e que as águas realmente se separam.

Quando, cheios de terra ainda, não nos tornámos estranhos aos outros seres. Tudo o que surge fora desse magma é eco de nós mesmos, inautêntico.

Freud, ao apropriar-se de alguns mitos, matou dois coelhos duma só cajadada: devolveu a ciência às suas origens obscuras e indecidíveis e libertou-nos da ilusão de óptica da história.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

(Lisboa)

FAZER O PINO




"Eles  vão  recolher  à  'Enciclopédia  Hegeliana'  a  riqueza  de  estruturas,  que  a partir  dessa  altura  passaram  a  ficar  disponíveis,  a  fim  de  explorarem  todas  as virtualidades  das  distinções  elaboradas  por  Hegel  com  vista  a  um  pensamento radicalmente  histórico."
(Jürgen Habermas)

Os 'Jovens Hegelianos', dos quais Karl Marx foi o mais influente, são criaturas pós-diluvianas. O mundo feudal, porém, tinha a sua Arca de Noé e conseguiu restaurar-se sob outras formas, como a monarquia constitucional.

A grande tarefa do 'radicalismo histórico' parecia infinita. Tratava-se nada menos do que uma outra criação do mundo na perspectiva dialéctica, ordenando o caos da história natural e imitando o fechamento da teologia.

Diferentemente dos revolucionários de 1789 e dos émulos de Robespierre que se sentiram na necessidade de inventar uma deusa da Razão, no lugar de Deus, o 'materialismo dialéctico' procurou 'deduzir-se' inteiramente da História. Não da crónica confusa dos acontecimentos, mas de uma história já contada. Ou melhor, de uma reinterpretação retroactiva que desse sentido e acabamento às ideias do movimento político em ruptura com o 'velho pensamento'. E, aparentemente, também com o velho professor de Iena cujo bom juízo era posto em causa por ter deixado a teoria de 'cabeça para baixo'.

Devia ter sido motivo de espanto para todos os filósofos que uma simples inversão como esta, que era pedida a uma ideia genial, bastasse para repor a verdade no seu soclo...

O que resultava disso é que se podia sempre alcançar a verdade recorrendo a Hegel, mas pedindo-lhe para fazer o pino.


quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

(José Ames)