sábado, 27 de agosto de 2016

(José Ames)

PRECEDÊNCIA DE FORMOSURA

Birth of Helen (Apulian Krater, c. 375-350 BCE)

Numa praia da Catalunha, o cavaleiro da Branca Lua desafiou D.Quixote numa questão de precedência de formosura.

Tratava-se de levar o manchego a reconhecer que existia uma beleza superior à de Dulcineia del Toboso.

É mais um caso de tratamento do mal com o veneno que lhe deu origem. Entrando no jogo da loucura, até certo ponto (mas em Cervantes, tanto a estratégia do riso quanto a da medicina levam a que o mundo da loucura tenha o mesmo direito à existência do que o do bom-senso), pretende-se, pela sua honra, fazer D. Quixote renunciar às altas cavalarias.

Ele é, assim, derrubado, mas não convencido a comparar com qualquer outra a mulher que só existe na sua cabeça.

domingo, 21 de agosto de 2016

(Paris)

OS ÍNDIOS DE FELLINI

Federico Fellini

Em "Entrevista" (1987), Fellini volta ao tema de "Otto e mezzo", filmando o fazer do cinema, a pretexto de contar as suas memórias sobre a Cinecittà.

O mesmo silêncio encantado, a presença do vento, o artifício do teatro e do circo, a galeria de monstros. O mundo do cineasta é povoado de tipos inconfundíveis. Anões e mulheres-gigantes. Convenceram uma de grande busto de que tinha o tipo felliniano, por isso ela aparece na audição. 

E, inesperadamente, nesta evocação sentimental que acaba numa paródia do western contra a televisão, com antenas em vez de flechas, a visita ao ícone de "La dolce vita", à mais felliniana das actrizes.

O reencontro do mítico par da Fontana di Trevi é potencialmente destrutivo.

Cerca de trinta anos depois, a realidade disforme debate-se como um pássaro ferido contra o ecrã.

Mastroiani, maquilhado como o Aschenbach no Lido de Visconti, é uma sombra repetindo um papel que foi o seu no mundo dos vivos e uma Anita enorme e porosa, na sua mansão guardada por molossos, deixa aparecer uma lágrima.

Esta confrontação da memória com o presente é como o contra-método do seu estilo. Um Fellini, cedendo ao pessimismo, diz-nos que sabe muito bem que não é o sonho que comanda a vida.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

(José Ames)

O PODER



"O poder é o que mantém o domínio público, o espaço potencial de aparecimento, entre homens que agem e falam, em existência. A própria palavra, o seu equivalente em grego 'dynamis'... indica o seu carácter 'potencial'. O poder é sempre, como poderíamos dizer, um poder potencial e não uma entidade imutável, mensurável e confiável como a força ou a resistência.
(Hannah Arendt)

A primeira consequência deste enunciado é que o poder que 'mantém o espaço público em existência' se distingue do 'poder' tal como ele é visto, nos nossos dias, pelos 'homens que agem e falam'. Não quer isto dizer que esse poder não assuma as funções de enquadramento necessárias, nem garanta o espaço da palavra, a qual, mesmo diminuída, permite, ao menos, uma comunidade política. É que essa natureza do poder fundador deixou de ser reconhecida no espaço público, para só aparecer o seu carácter constringente, burocrático e classista que  teorizações como a de Marx, lhe destinaram. Não é sem razão que já crismaram o nosso tempo como a era da suspeita. O poder é mais uma história do 'lobo mau'.

Trata-se tão-só do triunfo do individualismo e da Crítica (esta tem sempre que calar em nome de quem fala, não é?) que o 'capitalismo', com a sua terraplanagem, tão eficazmente desenraizou, ou é outra coisa, completamente diferente?

À medida que o 'sistema' passa a ser compreendido como uma catástrofe 'natural', percebemos que não é possível conservarmos uma teoria da evolução consistente. Isto é, há que introduzir  a narrativa do espaço público.



quinta-feira, 18 de agosto de 2016

(Alvoco)

TAGARELICE




"(...) toda a gente fora da 'polis', escravos e bárbaros, era 'aneu logou', privado, naturalmente, não da faculdade da fala, mas de um modo de vida no qual a fala e só a fala fazia sentido e onde a preocupação central de todos os cidadãos era falar uns com os outros."
(Hanna Arendt)

Não se deve levar esta ideia para o lado da proverbial tagarelice dos Gregos. Porque uma linguagem, uma mundividência não se constroem com indivíduos isolados ou desenraizados. Era o caso dos escravos, antigos prisioneiros de guerra ou descendentes destes.

A Grécia clássica não durou o tempo bastante, ou o seu sistema de classes foi suficientemente estável para que os 'aneu logou' tomassem a palavra e se pudesse falar numa cultura própria.

A própria noção de uma 'vontade de falar' característica do cidadão ou do emancipado presta-se por demais a uma interpretação pela dialéctica marxista para esta não se impor, à falta de melhor. A classe ociosa é a que tem todo o tempo para falar consigo própria.

É verdade que através dessa 'actividade' se chegou a algo de novo que está na base do mundo moderno. A ciência, nem é preciso relembrar as séries de Auguste Comte, começou pela especulação teológica, fase que, entre os Gregos, já não se podia incluir na tagarelice e no falar por falar.

Tudo isto sugere que a linguagem nos conduz mais do que a conduzimos. Que ela, por assim dizer, 'sabe mais' do que aquilo que lhe 'ensinámos'.



quarta-feira, 17 de agosto de 2016

(José Ames)

TAOISMO





"É fácil manter-se quieto e não deixar rasto, mas é difícil andar sem tocar a terra. Se segues os métodos humanos, poderás enganar e conseguir ainda escapar. No caminho do Tao, o engano é impossível.

Sabes que se pode voar com asas: falta-te aprender a voar sem elas. Estás familiarizado com a sabedoria daqueles que sabem, mas ainda não conheces a sabedoria daqueles que não sabem.

Observa esta janela: não é mais do que um buraco na parede, mas graças a ele todo o quarto está cheio de luz. Assim, quando as faculdades estão vazias, o coração enche-se de luz. Ao estar cheio de luz, converte-se numa influência por meio da qual os demais se vêem secretamente transformados."

"Escritos sobre Chuang Tzu" (Thomas Merton)

O discípulo é dissuadido por Chuang Tzu de se precipitar na acção, pois por essa via encontrará necessariamente inimigos e, no fim, tudo permanecerá igual. A sua sede de justiça esgotar-se-á nos primeiros esforços. São os 'métodos humanos' que nos submetem todos aos trabalhos de Sísifo.

A 'boa-vontade' de que se fala no Evangelho, também poderia ser vista como uma 'transformação interior', mas como o demonstra a tradição dos mártires da Igreja, não estaria completa sem o confronto com a intolerância e a injustiça. Mas esta 'militância' inspira-se em quê? Talvez no episódio da expulsão dos vendilhões, ou na violência descritiva de algumas passagens do Livro.

Mais interessante ainda é a expressão: 'sabedoria dos que não sabem'. E outra aproximação pode ser feita com o texto evangélico. Por exemplo, com o exemplo dos lírios que não sabem fiar e que Deus vestiu sumptuosamente. É a poesia, de facto, que nos pode ajudar a compreender o oxímero de uma sabedoria que não sabe.

Note-se que não se trata de um instinto, nem de uma prática tradicional e sem conceito. É a ideia de uma perfeita e dócil instrumentalização pelo divino, como queria Simone Weil.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

(Legnica, Polónia)

A BÍLIS E O SER

Martin Heidegger (1889-1976)


"Heidegger é o pequeno-burguês da filosofia alemã, que pôs à filosofia alemã o seu barrete de dormir "kitschig", o barreto preto e "kitschig" que Heidegger usava sempre, em todas as ocasiões. Heidegger é o filósofo de chinelos e barrete de dormir dos alemães, nada mais.

(...) sempre me repugnou, porque tudo em Heidegger foi sempre para mim asqueroso, nem só o barrete de dormir na cabeça e as ceroulas de Inverno de tecido caseiro por cima do fogão aceso por ele próprio em Todnauberg, nem só o seu bordão da Floresta Negra por ele próprio entalhado, tal como a sua filosofia da Floresta Negra por ele próprio entalhada, tudo neste homem tragicómico foi sempre para mim asqueroso, me repeliu sempre profundamente, em qualquer altura que nele pensasse;"

" Antigos Mestres" (Thomas Bernhard)

A caricatura parece certeira, quando se olham as fotografias e se pensa na forma como tratou o seu mestre Husserl.

O homem exterior está todo nessa figura ridícula, se quisermos (se atravessarmos um limite), com a sua boina preta e o seu bordão. Mas o desenho vai mais longe. Sugere que a impressionante obra filosófica é uma fraude que corresponde ao envelope desse corpo.

O imenso cortejo de admiradores e de discípulos aparece então desencaminhado e seduzido por um contexto lamentável.

Sabemos que a bílis de Bernhardt é particularmente propensa à decomposição de ácidos gordos de essência austro-germânica. Não o podemos levar a sério.

E, no entanto, nunca mais voltarei e olhar uma fotografia de Heidegger da mesma maneira.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

(José Ames)

O OUTRO LADO DA LUA



"Não se pode descrever bem a vida dos homens se a não fizermos banhar no sono em que ela mergulha e que, noite após noite, a contorna como a uma península rodeada pelo mar."

("À la recherche du temps perdu, le Côté de Guermantes", Marcel Proust)

O paradoxo é que essa parte da nossa vida não conta para a maior parte, e alguns sonham em reduzir o tamanho da 'península' ao de uma ínsua à margem da vida, quase sem solução de continuidade. A verdade é que já se pensou em 'aprender' durante o sono, isto é, sem passar pela experiência.

Em contrapartida, lemos com deleite as observações deste 'especialista' do sono. Como se entra e sai dele, como se confundem as formas na passagem, e são páginas e páginas voluptuosas, para quem não tem pressa de chegar ao fim.

É uma verdade que devia entrar-nos pelos olhos dentro, mas que, talvez por boas razões, recalcamos. Durante o sono é como se recebêssemos da terra uma recarga de vitalidade para a nossa existência estremunhada. E já uma vez aqui comparei essa situação com as vagens adormecidas de um célebre filme de Don Siegel ("Invasion of the bodysnatchers", 1956).

Não podemos, realmente, compreender o homem apenas pela sua vida activa. E se um dia conseguirmos 'largar no espaço' essa parte de nós, parece que, ao mesmo tempo, teremos descolado do planeta para sempre.


domingo, 14 de agosto de 2016

(Lisboa)