segunda-feira, 26 de setembro de 2016

(Lisboa)

A RAZÃO E OS DEMÓNIOS


(Francisco Goya)


"(...) porque o irracional pode ser coerente com ele mesmo, com os seus axiomas implícitos;"
(Paul Veyne)

Entre as 'racionalidades', Veyne inclui a irracionalidade, porque se a razão pode ser plural, basta que a irrazão seja lógica para ser admitida no santuário apolíneo.

Então, a loucura deixa de ser a maldição antiga que excluía o indivíduo da humanidade e que, na mitologia, era muitas vezes o sinal de um favoritismo dos deuses. Só se lhe pede que seja 'maníaca', isto é, de uma lógica 'à outrance'.

O parentesco deste 'destronamento' da razão com o fim do antropocentrismo (do primeiro grau, por assim dizer) é evidente. O homem racional torna-se um homem de racionalidades em que o oposto da razão, outrora parte do paradigma, é absorvido pela pluralidade do sentido.

Poder-se-á ainda falar de uma Razão universal? E qual poderá ser a nova metafísica que sustente este Babel 'legislativo?

domingo, 25 de setembro de 2016

(José Ames)

O PRÍNCIPE




Luchino Visconti (1906/1976)


Visconti não confiava no talento do actor. Queria que fosse exacto. 

Como no caso da decoração do palácio Ponteleone, de "Il Gattopardo", em que os pratos deviam sair da cozinha a fumegar e as flores, trazidas todas os dias, de avião, de San Remo, tinham de ser frescas, o actor tinha de ser autêntico. O corpo não podia simplesmente representar. 

Um dia, Visconti convocou Renato Salvatore para se maquilhar às 7 da manhã e fê-lo esperar até às 8 da tarde. Obteve o estado de exasperação que precisava para a cena de "Rocco". 

No ensaio da célebre cena do baile, Burt Lancaster não foi mais bem tratado. Doía-lhe o joelho e a cena ia mal. Quando Luchino se apercebeu, pôs-se aos berros e disse-lhe que "não era nada consigo essa história de "divo" (Burt era uma star no seu zénite) e da entorse que tinha arranjado só porque ainda tinha a pretensão de se armar em jovem desportista." 

("Luchino Visconti, Les Feux de la passsion" de Laurence Schifano) 

Veja-se o que o cineasta diz de si próprio: 

"(...) Os actores mais inteligentes compreenderam por que é que eu queria em cena coisas verdadeiras, precisas, exactas. Criou-se a meu respeito uma lenda, a do encenador insaciável, terror dos empresários e dos directores de teatro. Existe sobre o cuidado que tenho na montagem dum espectáculo, uma montanha de anedotas divertidas, mas falsas." (ibidem) 

Bem vistas as coisas, esta obsessão em imitar a vida é muito pouco teatral e a maior parte do cinema corre noutra direcção.

Mas isso é o que cada criador traz à arte: o que não existia antes dele.

sábado, 24 de setembro de 2016

(Lisboa)

O SONAMBULISMO



"Ah, o facto de não te teres apercebido de nada", aqui ela pareceu hesitar por um instante - "o facto de não te teres apercebido de nada é o estranho do estranho. É o mistério do mistério."
"A fera na selva" (Henry James)

Marcher não adivinha nos silêncios de May o que ela não lhe podia dizer (que o amava). Mas o que estava para acontecer, o destino que ele esperava e que ela concebera como um filho, já tinha acontecido.

E Marcher sem compreender ainda, sempre à espera que o grande perigo desse um sentido à sua vida e que, por isso, tinha que se lhe dar a conhecer.

É a melhor ilustração da ideia de que se pode falhar a vida, por não nos precavermos contra o tempo, que a certa altura nos falta, e por adormecermos no hábito que amamos sempre de mais.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

(José Ames)

PLATÃO E SAVONAROLA

(Girolamo Savonarola)


"Savonarola sem dúvida admirava e amava Platão. Mesmo assim sentia que o objecto da arte era a edificação religiosa e mostrou esse ideal para os artistas 'no rosto de uma mulher piedosa quando está em oração, iluminada por um raio da beleza divina.'

Miguelângelo desprezava essa arte feita para os devotos e deixou-a para os Flamengos. Tinha horror à sentimentalidade e quase que ao sentimento. 'A verdadeira pintura', disse, 'nunca fará ninguém derramar uma lágrima.'"
(Romain Rolland)

A sentimentalidade torna-se ridícula numa escultura, e Miguelângelo era, sobretudo, um escultor. Na pintura, e ainda mais na fotografia, o instantâneo é muitas vezes aquilo que se procura e que é mais apreciado. E é claro que o sentimento pode ser passageiro e, ao mesmo tempo, revelador. Poderemos então falar de uma ética da economia de meios?

As 'tentações' da pintura são por isso muito maiores do que no caso da arte de esculpir. Mas quem 'saberá' escolher entre a poliferação barroca de um Bosch e o 'ascetismo' de um Malevich, por exemplo? 



quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Braga

ENGENHARIA SOCIAL


Niklas Luhmann

"Luhmann constrói o seu argumento segundo o princípio de que aquilo que não é controlável não existe verdadeiramente."
(Ulrich Beck)

Isso não faz com que o 'déspotismo esclarecido' ou o 'estado totalitário' confiram mais realidade à existência de tudo aquilo que controlam.

A razão é que a ditadura e o sistema militar ou burocrático são 'simplificações' radicais da sociedade política. São a forma mais 'natural' de reduzir uma complexidade que inviabiliza qualquer tipo de controlo.

O 'regulamento' impõe um simulacro de ordem necessária à comunicação. É o destino de todas as revoluções, pois começam pela destruição do aparato invisível que mantém a possibilidade de haver comunicação e controlo dos desenvolvimentos.

A Revolução Francesa é o melhor exemplo do descontrolo revolucionário pois levou  à guilhotina os principais protagonistas e os seus 'pais fundadores'. 

Pior do que a própria injustiça é o caos, que como pensava o sociólogo alemão é uma espécie de não-existência que nega até o sentido da própria justiça, revolucionária ou não.

Os 'engenheiros sociais' não são mais competentes, nesta matéria, do que o primeiro que aparece. Infelizmente, o exemplo do pequeno escravo do 'Menon' não funciona aqui. Não existe uma 'luz natural'.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

(José Ames)

O SUJEITO



"O homem é o único animal que recusa ser o que é."

(Albert Camus)

Também é o único a fazer-se a pergunta sobre o que ele próprio é, donde veio e para onde vai, como na epígrafe de um célebre quadro de Gauguin.

Mas essa é a contrapartida de ser consciente. De ter que 'criar' um mundo à sua volta dotado de sentido. O sentido do mundo impõe uma gramática, com o sistema dos pronomes, verbos e substantivos e tudo o que é essencial para construirmos a nossa 'alienação'.

Porque a nossa existência a partir daí se afasta cada vez mais da 'realidade' que supostamente é o objecto da actividade científica. As leis da Relatividade deveriam ser mais reais do que a incoerência do nosso viver...

Enfim, não se trata verdadeiramente de uma recusa de sermos o que somos. Não há aqui nenhum imperativo moral. Simplesmente não conseguimos ser espectadores da nossa existência, desde o momento em que nos compreendemos através do Sujeito que gramaticalmente somos.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

(Caminha)

O IDEAL OBJECTIVO

Platão (427/347 A C)


"Portanto, não só a objectividade e o despojamento de valores são praticamente inacessíveis ao cientista, como também essa objectividade e esse despojamento são já em si valores. E sendo o despojamento de valores ele mesmo um valor, a exigência desse despojamento constitui um paradoxo."

"Por um mundo melhor" (Karl Popper)

Um valor tem de ser defendido, não se impondo por si mesmo como evidente.

O facto de não nos podermos completamente despir da subjectividade e dos preconceitos não nos condena, porém, ao relativismo ( de cada um ter o seu ponto de vista e a sua verdade ).

Aqui é o passo perigoso. Porque como é possível acreditar numa verdade não relativa e conforme o momento histórico, por exemplo?

A ideia de Poper (que era a de Sócrates) é que não sabemos nada com certeza e apenas podemos formular hipóteses e conjecturas, as quais devemos continuamente submeter à crítica.

A compreensão histórica e o que Karl Popper chama de "situação do problema" postulam, de facto, um conceito de verdade provisória. Como é o caso da teoria que, através da crítica, cedeu a outra teoria que a compreenda a ela e que explique melhor do que ela.

É a existência deste pensamento objectivo, fora de nós ( o mundo das ideias de Platão e o Mundo 3 de Popper) que nos permite refutar o relativismo da consciência individual.

domingo, 18 de setembro de 2016

(José Ames)